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Quando a escola fere! Racismo – Memórias, marcas e reconstrução identitária – Artigo escrito pela pedagoga gabrielense Rubiani de Fátima Roque
O racismo representa uma das formas mais profundas e persistentes de violência vividas por crianças negras no ambiente escolar. Quando preconceitos ligados à cor da pele, aos traços físicos e à identidade negra se manifestam na infância, eles ultrapassam o momento e moldam intensamente a formação da autoestima, da identidade e da relação da criança com o próprio corpo.
No Brasil, o racismo opera de maneira silenciosa, cotidiana e naturalizada, reproduzindo desigualdades históricas exatamente no espaço que deveria acolher, proteger e educar: a escola. É nesse cenário que minha história se inscreve — marcada por experiências que deixaram cicatrizes emocionais profundas, mas que também deram origem a processos de resistência, tomada de consciência e reconstrução identitária.
A escola, primeiro grande espaço social fora da família, é o lugar onde a criança aprende sobre pertencimento. Mas, quando esse ambiente se torna palco de violências simbólicas e emocionais, especialmente contra corpos negros, as marcas deixadas podem atravessar anos ou mesmo uma vida inteira. No ambiente escolar brasileiro, práticas racistas moldam silenciosamente a forma como crianças negras são vistas, tratadas e avaliadas, afetando profundamente sua construção subjetiva.
Como afirma Sueli Carneiro, “O racismo deixa marcas profundas na constituição subjetiva das pessoas negras, exigindo processos contínuos de reconstrução” (CARNEIRO, 2003). Essa frase traduz exatamente o caminho que percorri.
Entre os sete e quatorze anos, vivi episódios de exclusão, comentários pejorativos e comparações humilhantes relacionados à minha cor de pele. Assim como muitas meninas negras, enfrentei julgamentos e rejeições direcionadas ao meu cabelo crespo e aos meus traços. Sem orientação, e tentando me proteger de novos constrangimentos, comecei a alisar o cabelo muito cedo, acreditando que meu corpo natural não era adequado ao ambiente escolar. Cresci carregando a sensação de que precisava modificar minha aparência para ser aceita.
Na vida adulta, compreendi que essa rejeição não era sobre mim — era resultado de um racismo estrutural reproduzido diariamente nos espaços escolares. Revisitar essas memórias é, ao mesmo tempo, doloroso e libertador. A dor se transforma em consciência. Consciência se transforma em força. Força se transforma em identidade.
Como diz Neusa Santos Souza, “Ser negro no Brasil é saber-se através do outro e reinventar-se a partir disso” (SOUZA, 1983). E foi exatamente nesse processo de reinvenção que encontrei caminho para reconstruir minha autoestima, afirmar minha negritude e transformar antigas feridas em protagonismo, orgulho e luta.
“O racismo tentou reduzir minha existência, mas transformei cada tentativa de apagamento em consciência, firmeza e potência.” (autoria) ROQUE, R. F
Rubiani de Fátima Roque
Pedagoga formada em 2018, com pós-graduação em Educação Especial e Inclusiva, com ênfase em Surdez e Libras, Docência do Ensino Superior em Libras, Alfabetização e Letramento, Educação Infantil e Anos Iniciais do Ensino Fundamental, Gestão Escolar e Formação em Tradutor e Intérprete de Libras. Atua como professora da Rede Municipal de Educação de São Gabriel da Palha, exercendo as funções de Tradutora e Intérprete de Libras e professora regente. É idealizadora do Projeto “Mãos Que Falam” (2025), voltado à promoção da inclusão e acessibilidade. Possui experiência na área da Educação, com ênfase em Surdez e Libras.
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Educação: entre o afeto, a consciência e o encantamento – Artigo escrito pela pedagoga gabrielense Micheli Fontes
Refletir sobre educação é atravessar tanto o que se aprende nos livros quanto o que se experimenta na alma. Em tempos em que a escola é constantemente cobrada por resultados mensuráveis, talvez seja urgente relembrar que ensinar não é apenas transmitir conteúdos, mas também e sobretudo tocar o coração.
A educação que transforma é aquela que reconhece o estudante em sua totalidade. É a que compreende, como nos diz Paulo Freire, que “a pessoa conscientizada tem uma compreensão diferente da história e de seu papel. Recusa acomodar-se, mobiliza-se, organiza-se para mudar o mundo.”Mas como promover transformação sem antes alcançar o outro pela via do afeto?Na prática educativa, o afeto é um alicerce. A escuta sensível, o olhar atento, a palavra encorajadora. Tudo isso constrói a ponte entre o conhecimento e o pertencimento. Como bem disse Augusto Cury: “Não há educação sem afeto. Ensinar é também tocar o coração.”
Essa ideia não é apenas teoria. É também vivência. Na minha infância, enfrentei desafios no processo de aprendizagem, muitos deles atravessados pelas marcas da minha realidade social, que muitas vezes, silencia ou invisibiliza aqueles que aprendem em ritmos diferentes.Na época, insegura, talvez invisível entre tantos outros alunos. Mas uma professora, chamada Marli, me viu. Com gestos simples, mas profundamente humanos, ela me mostrou que eu era capaz e, sobretudo, digna de aprender e de sonhar.
Anos depois, já formada em Pedagogia, reencontrei a professora Marli na escola onde hoje atuo. Ao vê-la, fiquei em silêncio, observando cada detalhe. Nada parecia ter mudado, exceto eu agora professora também. Quando me aproximei, ela sorriu e disse: “Você continua com o mesmo sorriso, Micheli.” Eu abracei aquela mulher que, sem saber, havia mudado meu destino. E respondi: “Hoje eu sou professora. Por você também.”
Esse encontro não foi apenas pessoal. Ele é coletivo. Ele fala sobre o que a escola pode ser: espaço de encontros, de reconhecimento e de encantamento. Talvez por isso, hoje, eu me dedique a olhar meus alunos com esse mesmo olhar que um dia me alcançou. Talvez algumas pessoas não compreendam minha sensibilidade diante do contexto escolar, mas ela nasce exatamente daquilo que me construiu dos desafios superados, das escutas recebidas e dos afetos vividos.
Ensinar, para mim, é mais do que instruir. É criar vínculos, despertar curiosidades, acreditar mesmo quando ninguém mais acredita. É ser ponte entre o hoje e aquilo que ainda pode florescer. Porque quando tocamos o coração, a aprendizagem deixa de ser apenas obrigação e se torna descoberta, vida e transformação.
A educação precisa voltar a encantar. E o encantamento começa onde há escuta, onde há afeto, onde há consciência. E, sobretudo, onde há educadores e educadoras que, como a professora Marli, decidem acreditar mesmo quando ninguém mais vê.
Micheli Fontes
Licenciada em Pedagogia (2017) e pós-graduada em Educação Infantil e Anos Iniciais do Ensino Fundamental, Educação Especial e Inclusiva, Atendimento Educacional Especializado, Alfabetização e Letramento, Supervisão, Orientação e Inspeção Escolar, além de Comunicação Alternativa e Tecnologias Assistivas. Professora de Educação Especial, atua no Atendimento Educacional Especializado na Rede Municipal de São Gabriel da Palha, com experiência em práticas pedagógicas inclusivas
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