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Frente questiona lógica manicomial em residências terapêuticas
A situação dos Serviços Residenciais Terapêuticos (SRT) no Espírito Santo foi tema de intenso debate da Frente Parlamentar (FP) em Defesa da Saúde Mental e da Luta Antimanicomial. A reunião do colegiado presidido pela deputada Camila Valadão (Psol) foi nesta quarta-feira (1º).
A maioria dos presentes, como o Núcleo Estadual da Luta Antimanicomial, fez a defesa de cobrar do estado capixaba uma apuração sobre o estágio da chamada “desinstitucionalização” e sobre a qualidade das 18 RTs em atuação no ES. Para a entidade, as residências podem estar perpetuando a lógica manicomial que deveria ser combatida na política oficial de saúde mental no país.
“A reabilitação, ela parte da construção dos direitos de cidadania, não há reabilitação psicossocial se não for pela conquista e pelo exercício dos direitos de cidadania que se dão nos aspectos afetivos, relacional, material, habitacional e produtivo. A reabilitação psicossocial é uma exigência ética, não é uma receita”, refletiu a professora e terapeuta ocupacional Adriana Leão.
A especialista insistiu que o serviço residencial terapêutico precisa se estabelecer não como espaço de morar, mas como espaço de habitar. “As pessoas moraram 30 anos dentro dos hospitais psiquiátricos (…). A diferença entre habitar e morar é simplesmente a apropriação desse espaço. Esse espaço precisa ser apropriado pelas pessoas. Elas precisam sentir-se em casa e não é o que tem acontecido.”
Adriana Leão afirmou acompanhar as residências terapêuticas há mais de 23 anos e criticou a manutenção da “lógica de controle manicomial” das unidades. Vários participantes, profissionais da Saúde, dos Centros de Atenção Psicossocial (Caps), reclamaram que os usuários são impedidos de vivências, decidirem suas próprias alimentações, entre outras rotinas que as casas deveriam propiciar.
“A Portaria 3.090/2011 vai alterar a Portaria 106/2000 para dizer que o serviço não é uma unidade de saúde, ele é um espaço de moradia para garantir o resgate da cidadania e do convívio social da reabilitação psicossocial e o direito à cidade”, enfatizou a professora, citando normativa do Ministério da Saúde sobre o repasse de recursos de custeio para implementação e funcionamento dos SRT.
Demandas
O processo capixaba de desinstitucionalização da saúde mental passaria por diversos problemas, elencados pela deputada Camila Valadão em resumo de denúncias recebidas.
Dificuldade de financiamento da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS), recusa dos municípios em cumprirem seus papéis (construção de CAPS), RTs padronizadas e sem identidade ou referências pessoais dos moradores, além da alta rotatividade das equipes técnicas e equipes incompletas estão entre as reclamações.
O debate também inclui o adoecimento dos trabalhadores e falta de condições de trabalho ou de autonomia para atuar, inexistência de treinamentos e ainda falta de preparo dos cuidadores para emergências.
Além do incômodo com uma política estatal que ignoraria os princípios do SUS e da RAPS, o público presente fez uso do microfone para reclamar de superlotação de casas; precariedade técnica das unidades; falta de fluxo de atendimento eficiente; e a restrição da alimentação como ataque à autonomia dos atendidos.
Diversas acusações sobre a gestão das 18 unidades, todas elas na Grande Vitória, foram respondidas pelo Instituto Vida e Saúde (Invisa), a organização da sociedade civil de interesse público (Oscip) responsável pelas casas.
Os representantes afirmaram que há sim treinamentos constantes para suas equipes, mas confirmaram a alta rotatividade de contratados em funções de apoio por falta de profissional especializado, dificuldades de adaptação e baixa remuneração. A Invisa defendeu que há controle rigoroso e prestação de contas aos Poderes envolvidos sobre a gestão de benefícios em dinheiro de tutelados sobre o cuidado da residência.
Balanço do debate
A deputada proponente considerou rica a reunião com a participação de profissionais que atuam na atenção psicossocial, além dos profissionais da Oscip responsável pelas RTs. No entanto, Camila Valadão lamentou a ausência da Secretaria de Estado da Saúde.
“Seria fundamental a presença, tanto para ouvir o conjunto de apontamentos que foram feitos, mas também as sugestões para que a gente possa avançar nesse serviço, que é fundamental no processo de desinstitucionalização de pessoas com transtornos mentais. É um serviço que requer, no estado do Espírito Santo, mais atenção”, afirmou.
“Os vários relatos feitos aqui são a manutenção de uma lógica manicomial, não garantindo aquilo que prevê a legislação, que é de fato a autonomia, a cidadania desses pacientes, dessas pessoas que residem nessas residências. Então os relatos foram muito fortes. Nós da frente também já vínhamos recebendo inúmeras denúncias”, complementou Camila.
Também compuseram a mesa de debates o assessor parlamentar Rafael Valencio e a coordenadora do Direito à Saúde da Defensoria Pública Estadual, Maria Gabriela Agapito.
Fonte: POLÍTICA ES
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Seminário debate políticas públicas para segmento LGBTQIAPN+
A Comissão de Defesa dos Direitos Humanos da Assembleia Legislativa do Espírito Santo (Ales) realizou, nesta sexta-feira (3), no Plenário Dirceu Cardoso, o 2º Seminário LGBTQIAPN+Fobia. Com o tema “Não é só close, é luta”, o encontro reuniu representantes de movimentos sociais, conselhos, entidades e parlamentares para discutir o enfrentamento à discriminação, a ampliação de políticas públicas e os desafios enfrentados pela população LGBTQIAPN+.
Segundo a organização, o tema do seminário faz referência à defesa de direitos e ao fortalecimento da mobilização social, para além da visibilidade da comunidade.
A presidente da Comissão de Defesa dos Direitos Humanos, deputada Camila Valadão (Psol), destacou que a construção do seminário contou com a participação de lideranças históricas, conselhos e fóruns do movimento LGBTQIAPN+ no Espírito Santo. “Um verdadeiro movimento foi o seu processo de construção, reunindo lideranças históricas, conselhos, fóruns e movimentos do estado”, afirmou.
Durante sua fala, a parlamentar também defendeu a importância de ampliar os espaços de participação e debate sobre os direitos da população LGBTQIAPN+ no Parlamento.
“A oportunidade de receber e de promover este seminário é para que vocês se sintam à vontade. Esta Casa precisa e deve ser a Casa do povo, embora muito pouco represente vocês. Estou convicta de que a pauta do enfrentamento à LGBTQIAPN+fobia não é só de vocês, embora o protagonismo seja de vocês”, afirmou Camila.
Para a deputada, a Casa tem combatido a comunidade LGBT cotidianamente. Mas, segundo ela, não basta apenas se contrapor a esses discursos – o que ela chama de LGBTQIAPN+fobia institucionalizada. Para ela, é preciso ir além e este seminário, afirmou, é uma tentativa, embora insuficiente, mas é também para garantir o espaço de fala.
Por sua vez, a vice-presidente da Comissão de Defesa dos Direitos Humanos, deputada estadual Iriny Lopes (PT), destacou que os direitos já conquistados têm que ter continuidade, “gratificantes as pequenas conquistas, mas elas existem, mas há tantas conquistas a serem realizadas porque as trevas estão querendo brigar com a luz”, alertou a deputada.
Conselhos e políticas públicas
Um dos destaques do seminário foi a celebração dos dez anos de criação do Conselho Estadual LGBT do Espírito Santo. Participantes também lembraram que atualmente existem 20 conselhos estaduais semelhantes em funcionamento no país, além de outros em fase de implantação.
Representando o Conselho Estadual LGBT, Kassandro Silva dos Santos afirmou que as políticas públicas voltadas à população LGBTQIAPN+ são resultado da mobilização social e defendeu o fortalecimento dos conselhos e a garantia de recursos para a área.
Para Kassandro Santos, a comunidade enfrenta todas as formas de discriminação que acentuam a desigualgade, e que os direitos humanos não são privilégios, mas garantias institucionais. Por isso é preciso garantir orçamento para as políticas públicas, fortalecer os conselhos e impedir qualquer retrocesso. “Enquanto existir desigualdade, existirá resistência”, garantiu.
Avanços e desafios
Representantes de fóruns e entidades também abordaram temas como a atuação do Poder Judiciário na garantia de direitos, o combate à desinformação, o envelhecimento da população LGBTQIAPN+, a necessidade de fortalecimento da participação social e os desafios para ampliar políticas públicas voltadas ao segmento.
O representante do Fórum Estadual LGBT Fábio Veiga afirmou que importantes conquistas da comunidade ocorreram por meio de decisões judiciais, como o reconhecimento da união homoafetiva e do direito à adoção por casais do mesmo sexo.
“Há aqueles que tentam reduzir a população LGBTQIAPN+ pela sua aparência e que a comunidade é só festa e entretenimento. No entanto, não é só o close por close, é a luta pelos nossos direitos. As conquistas são graças às lutas e muitas vidas. É nesta Casa que nossa população, os nossos corpos são massacrados”, pontuou.
Já o professor da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) e representante do Fórum Municipal LGBT de Vitória Alexsandro Rodrigues enfatizou a necessidade de motivação para ser militante no movimento social. Alexsandro Rodrigues destacou a importância da valorização da alegria e da esperança como elementos de fortalecimento dos movimentos sociais.
“Michel Foucault disse que não precisamos ser tristes para sermos militantes. Falarmos da importância da alegria enquanto condimento do existir. Como que a alegria incomoda demais a quem quer nos enfraquecer e entristecer. Um corpo, uma vida dissidente só se mantém em vida a partir da alegria. Precisamos pensar a alegria enquanto um direito”, defendeu Rodrigues.
A representante do Fórum Municipal LGBT da Serra, Layza Lima, apresentou ações desenvolvidas no município, como a implantação de um ambulatório para pessoas trans e programas de capacitação de servidores públicos.
Também participaram do seminário representantes do Instituto Brasileiro de Transmasculinidade (Ibrat-ES), do Fórum Nacional de Travestis e Transexuais Negras e Negros (Fonatrans), além de parlamentares municipais da Serra e de Cariacica.
Fonte: POLÍTICA ES
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