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Alessandra Piassarollo - ES1.com.br

No tempo em que nos esperávamos mais

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Minha mãe sempre teve o hábito de preparar comida a mais, especialmente para os almoços de domingo. Ela enchia as panelas, com mais do que o suficiente para nossa família. Mas ela não pretendia desperdiçar nenhum grão, não. Tampouco esperava ninguém em especial. A gente vivia uma expectativa constante do tipo: “vai que chega alguém…”.

Naquela época não usávamos telefone nem nada e eu me perguntava por que ela fazia aquilo, já que tudo não passava de suposição. O fato é que ela fazia com frequência e as panelas cheias tornaram-se uma espécie de convite. As visitas, que se revezavam entre parentes e amigos, passaram a ser uma constante em nossa casa simples.

Hoje penso que as panelas dela não se enchiam apenas de comida. Que se enchiam também de afeto e consideração, mesmo sem saber a quem serviriam. Acho até que o coração dela era maior do que as próprias panelas. Tudo isso se tornou um atrativo e o que não passava de suposição tornou-se nossa realidade. Percebi conforme o tempo passava que, embora as pessoas viessem sem aviso, chegavam com a certeza de que ela estaria pronta para recebê-las.

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Que lições aquelas panelas quentinhas sobre o fogão à lenha foram capazes de me ensinar!

Talvez nossas “panelas” estejam ficando vazias demais. Estamos nos satisfazendo com coisas que não deveriam nos deixar satisfeitos. Não nos esperamos mais, nem queremos recebermo-nos. Cada um por si, sem nenhuma chama acesa e sem nos encontrarmos de fato.

Por mais que se insista em dizer que o afeto se liquefez, a maioria das pessoas ainda está à procura de aconchego e carinho. E pensar que já fomos melhores nisso! Que já demos mais importância às outras pessoas, na época em que elas eram o que tínhamos de mais precioso.

Agora se diz “família, meu tudo”, sem que haja uma verdade sendo dita na íntegra. A família tornou-se digital e vê-se muito mais pela tela. Os amigos têm-se enveredado por este mesmo caminho.

A verdade é que a gente anda mesmo é sem tempo pra acolher quem quer vir ao nosso encontro, embora tenha muita gente querendo ser esperada e necessitando ser encontrada, com fome que não é exclusiva de arroz e feijão.

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Bem que poderíamos adotar a tática das panelas cheias, abarrotando-nos com sentimentos de amor e de espera pelo outro; bem que poderíamos aumentar

nossa abertura e nossa receptividade. Porque faz bem para nosso crescimento pessoal, o encontro com quem está à procura de alívio para as necessidades que sente.

Oferecer um sorriso, um abraço ou uma refeição de vez em quando não faz mal a ninguém, e deixa o coração cheio de coisas deliciosas. Pelo menos foi o que eu aprendi com as convidativas panelas da minha mãe.

As panelas da minha mãe

http://www.portalresiliencia.com.br/2018/01/15/as-panelas-da-minha-mae

 

Alessandra Piassarollo
Administradora e Escritora

Alessandra Piassarollo - ES1.com.br

E se eu me for agora, terei amado o suficiente?

Soube da notícia de que um conhecido havia partido dessa vida. De repente, surpreendentemente, sem nenhum tipo de aviso prévio, como a morte costuma fazer.

Fiquei imaginando se as coisas seriam diferentes na vida dele, se ele soubesse que partiria em breve. Imaginei se as coisas seriam diferentes na minha vida, e na vida de todos nós; se não deveríamos estar mais atentos ao fato de que a vida vai terminar para nós também.

Será que temos amado em quantidade suficiente? Será que temos feito o nosso melhor e aproveitado a companhia das outras pessoas? Ou partiremos deixando para trás aquela sensação de que deveríamos ter feito tudo de forma diferente?

Muito provavelmente a resposta é a de que não estamos vivendo da melhor forma possível. Poderíamos estar vivendo com prazer e com mais qualidade. Poderíamos estar pondo freios em nossa preocupação exagerada e nessa vontade de partir pra briga, contra tudo e contra todos, que temos sentido.

Deveríamos refrear nosso velho hábito de deixar coisas importantes para depois, simplesmente porque não temos nenhuma garantia de que o depois virá. E parar de alegar falta de tempo, principalmente se ele estiver sendo mal gasto.

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Aprender a não guardar roupa, calçados e louças para ocasiões especiais. O momento especial é agora, porque ele nos garante vida para desfrutá-lo. Poderíamos parar de economizar o que temos de bom dentro de nós. E não deixar a vida, os amores e os sonhos pra depois. Eles não precisam ficar tanto tempo na sala de espera.

Tampouco podemos desperdiçar o tempo de agora, porque ele é precioso demais para isso. O ontem não regressará e talvez o amanhã não chegue até nós.

Engana-se quem pensa que essas verdades exigem pensamentos negativos. Mas é preciso que fiquemos em estado de alerta e deixemos despertar em nós um desejo irrepreensível de amarmos a vida e tudo o que ela nos oferece.

Que o prazo de validade determinado que nos foi imposto desperte em nós o desejo de diminuir os conflitos e de ter mais sossego interior. Busquemos a sensação reconfortante de ter nossas almas desfrutando de afeto e de tranquilidade; que saibamos reassumir o controle da nossa vida, sem sermos marionetes para o teatro sentimental de ninguém.

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Não queiramos que as circunstâncias da vida tragam-nos arrependimentos por não termos sabido conduzir nossos dias. Amemos o máximo possível: A nós mesmos e às outras pessoas. Tenhamos apreço por quem somos e respeito por quem fomos. Planejemos o futuro de forma que possamos aproveitar bem todas as oportunidades que vierem, enquanto vierem.

Andemos de cabeça erguida, sem culpas desnecessárias. Esforcemo-nos para encarar todos os fatos com leveza e com a certeza de que existe uma lição a ser aprendida em cada acontecimento.

Desfrutemos da vida com a coerência de quem sabe que um dia ela terminará. E torçamos para que o acaso não se canse de nos proteger, caso continuemos a andar tão distraídos.

Alessandra Piassarollo
Administradora e Escritora

 

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