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Mães guerreiras na linha de frente da pandemia

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Higienizar as mãos, colocar a máscara e se preparar para uma jornada que promete desafios. Os dias são uma batalha contra o relógio e as noites em claro parecem não ter fim. Enquanto cuida do medo de um, acalenta a dor do outro. Tem sido assim a linha de frente contra a Covid-19. Não apenas de profissionais de saúde, mas também de um outro batalhão de guerreiras: as mães.

Como o fechamento das escolas impactou a rotina familiar? As crianças ficaram mais ansiosas e passaram a dar mais trabalho? Como faz para acompanhar as aulas on-line? Como foi assumir o papel de mãe, arrumadeira, faxineira e professora em tempo integral? São tantas as perguntas e, pouco se sabe, como tudo isso vai se reajeitar em algum tempo até que as mães se recuperem das perdas na vida profissional. Uma coisa é certa para quase todas: o cansaço.

Mãe, mulher, profissional

Quando engravidou da primeira filha, a tecnóloga em processos gerenciais Tatielly Araújo resolveu, em comum acordo com o então marido, deixar seu trabalho para dedicar-se exclusivamente à educação da criança. Seis anos depois e com três filhos, ela pediu o divórcio. Quando pretendia retomar a vida profissional e colocar em prática novos projetos, veio a pandemia. Mais de um ano depois, Tatielly está exausta, sufocada, ansiosa e praticamente sem renda. Ela e mais milhões de mulheres no Brasil estão fora das estatísticas do mercado de trabalho.

“Nem considero ser um recomeço. A mulher sem filho, a mãe casada e a mãe sozinha são três pessoas diferentes. Isso que estou vivendo agora é um desafio completamente novo. Em um momento você tem a impressão de que tem um amigo ou um familiar com quem pode contar e na verdade não tem ninguém. A responsabilidade é minha, a carga emocional é minha. É uma experiência solitária e complexa. Em resumo, é medo, desespero. É difícil demais”, desabafa Tatielly.

De acordo com dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad), a pandemia empurrou 7 milhões de mulheres para fora do mercado de trabalho já nos primeiros meses de restrições. A exclusão dos postos de trabalho na pandemia multiplicou uma realidade que já era constatada em pesquisa do IBGE:  as mulheres já dedicavam 78% a mais de tempo às tarefas de cuidados domésticos do que os homens. 

Segundo o relatório especial da Comissão Econômica para América Latina e o Caribe (Cepal), a crise atual gerou um retrocesso de mais de uma  década em avanços na participação feminina no mercado de trabalho. Estudos realizados pela Universidade Federal do Mato Grosso do Sul apontam que, No Brasil, a taxa de mulheres no mercado de trabalho é a menor dos últimos 30 anos.

Quando os números são colocados no papel, a situação das mães brasileiras fica ainda mais dura. Segundo o IBGE,  das 10,3 milhões de crianças de até quatro anos no Brasil, 84% são cuidadas por mulheres  e mais da metade, 45%, não trabalham fora. Importante também considerar a condição das casas chefiadas por mães negras: 64,4% delas estão abaixo da linha da pobreza. Nessa circunstância também estão 57% das famílias de mães solo.

Luto e responsabilidade em dobro 

A assistente social Fernanda Pereato, 40 anos, é o espelho do tanto que a pandemia tornou a vida das mães uma batalha diária. No ano passado, ela perdeu o marido em um acidente dois meses antes do início da quarentena. Ainda atormentada pela dor da perda, teve de dar conta, sozinha, de cuidar de duas crianças em uma cidade distante da família. Não pôde contar nem com os avós das filhas de 4 e 6 anos. Eles adoeceram e também precisaram de cuidados. E, para completar a jornada repleta de desafios da Fernanda, as duas crianças necessitam de terapias especiais. 

“Minhas filhas ficavam o dia todo na escola. Com o distanciamento, ficaram abaladas, com ansiedade, sem rotina, sem contato social com outras crianças. Uma delas teve problemas alimentares e, para piorar, começou a cutucar a pele até machucar”, conta.

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Nos dias mais tristes devido à perda do marido, Fernanda tentava não deixar as filhas presenciarem seu luto, nem vê-la chorar. E isso precisou ser administrado dentro de um apartamento. Além dos desgastes emocionais que já eram grandes, a assistente social teve de se desdobrar nos gastos extras. Com dois empregos, só conseguiu liberação de um deles para fazer home office. Precisou contratar uma pessoa para ficar com as meninas parte do dia, além de professores particulares para fazer o acompanhamento pedagógico.

“Minha filha de 6 anos não consegue se concentrar durante três horas por dia em frente ao computador. Ela avalia que as filhas estão tendo diversas perdas cognitivas, sociais e ambientais, prejudicando, em muito, o desenvolvimento delas. “As dificuldades são de todos os lados, tanto da criança, da família e também da escola, que não estava preparada pra isso”, opina.

Outra constatação de Fernanda foi o inevitável aumento do tempo de exposição a telas. “ As tarefas de mãe foram triplicadas. Com tantas coisas pra fazer, eu não conseguia esgotar o tempo livre das crianças com brincadeiras saudáveis e isso vem sendo extremamente prejudicial no desenvolvimento delas. E o tempo todo pedem pra voltar para a escola”, relata.

Sobre assumir o papel de mãe em tempo integral, sem o marido e sem nenhuma rede de apoio familiar, ela afirma que foi bem difícil. “A mulher já desempenha ‘n’ papéis na família e na sociedade. Estamos sendo cobradas ainda mais. O esgotamento é nítido e preocupante. Tenho conhecidas que perderam o emprego ou tiveram salário diminuído”, lamenta.

Cuidando dos filhos da Covid

Aline Rubim é enfermeira no Hospital Dr. Jayme Santos Neves, referência em tratamento de Covid. Ela conta que, no início da pandemia, teve de deixar o bebê de nove meses com a mãe dela e, que, por medo de contaminar a família, só conseguia ver o filho a cada 30, 45 dias, mas antes disso, pagava quase R$ 400 reais em testes para ter certeza de que estava saudável.

“O hospital só fazia exame em funcionários que apresentavam sintomas. Tenho uma avó acamada com 91 anos e minha mãe com 61; como ambas eram grupo de risco, eu tinha medo de contaminá-las. Então tinha de pagar do meu bolso para ver meu filho. Cheguei a ficar 45 dias sem vê-lo”.

Aline revela que o sacrifício de ficar na linha de frente cuidando de pacientes em estado grave não foi tão difícil quanto a saudade do filho. “Mergulhei de cabeça nos plantões, só pra não ir pra casa, onde sentia muito a falta do meu bebê. Comecei a quase morar no hospital. Teve tempo de passar uma semana sem sair”. 

A família contribuiu muito para aproximar o pequeno Benjamin da Aline, usando videochamadas, fotos e ligações. E foi assim, a distância, enquanto se privava de estar com o filho para cuidar dos filhos de outros, que ela viu o que toda mãe gostaria de estar bem pertinho pra comemorar: o bebê dando os primeiros passinhos.

Com o passar do tempo Aline começou a ver o filho com mais frequência, contando agora com uma babá. Mas nem assim, as dificuldades diminuíram. “Da parte emocional, acho que é a fase mais difícil pra mim, pois já ultrapassei o meu limite de ver pessoas morrendo. Todo plantão tem pelo menos dois óbitos. A gente se apega aos pacientes e acabam sendo como filhos. É triste ver essa pessoa que você cuidou, segurando na sua mão, pedindo a sua ajuda e, por mais, que você faça de tudo, não consegue salvar aquela vida. Mais difícil ainda, é dar essa notícia a cada família, a uma mãe como eu. É desolador”, desabafa.

Quando elas precisam de colo