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Alessandra Piassarollo - ES1.com.br

EU, O HOMEM E A BICICLETA – SOBRE O QUE IMPORTA DE VERDADE

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O calor da tarde me fez sentar à sombra, num banco de praça. E enquanto a sombra me trazia de volta o fôlego perdido, notei um homem parado ali por perto. Sua aparência peculiar me chamou a atenção.

Estava ele, um senhor de aparência bastante humilde, se aprontando para sair. Notei a barba, cuja cor vinha sendo tingida de branco pelos anos que se acumulavam em seu calendário. Os anos também deveriam ser os responsáveis pelos vincos que cercavam os olhos dele. O ar de maturidade era quase palpável. Aquela maturidade que o tempo trás, mas a custo de experiências excruciantes.

Seus pés visivelmente calejados haviam sido calçados com um chinelo azul. A cor pouco desbotada mostrava que a caminhada em conjunto era apenas começada.  Ainda muito chão teriam os dois pela frente.

Tinha ele, e parecida orgulhoso disso, uma bicicleta. A marca conhecida, cuja propaganda estava impressa no quadro, agora mal se podia ler. O outrora vermelho da pintura vinha sendo substituído pela marrom impiedoso da ferrugem. Sinal de que há muito os dois se possuíam e envelheciam lado a lado.

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Chamou-me a atenção o cuidado, beirando devoção, com que preparava sua companheira de jornada para sair. Com calma, e um pouco de carinho, ele a aprontava e ajeitava um cadeado e uma corrente. Os objetos pareciam ser recém-adquiridos, e esse contraste era evidente, assim como a preocupação com sua posse de longa data.

O zelo do homem me deixou fascinada por algum tempo. Enquanto o olhava, pensei nas coisas que ele provavelmente ignorava.  Certamente não nutria nenhuma preocupação com o que acontece nas mídias que tanto prezamos. Não parecia gastar seu tempo com essas miudezas. Talvez ele risse de mim, se eu lhe perguntasse sobre seguidores de redes sociais. Acho que ele se interessa mais por uma boa conversa, feita na porta de casa, sem tecnologias.

Mas via-se claramente que ele entendia de trabalhar para ganhar seu pão. Seu semblante não deixava dúvidas de que foi o suor no rosto quem lhe comprou o sustento, dia após dia; o olhar atento denunciava que ele viu muito da vida, e aprendeu com ela. E deve ter guardado muitas dessas histórias pra transportar em sua “bagageira”.

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O cadeado novo, que manteria segura sua bicicleta, mostrou que ele sabe o que importa de verdade: que tem valor o que foi conquistado com esforço. Que as coisas não deveriam ser tão descartáveis como temos feito parecer. Dignidade não tem preço, ainda que se tenham poucos bens. Estar vestido com simplicidade, de chinelo no pé e modéstia na cara não diminui a pessoa de ninguém.

E então finalmente eu o vi partir, com sua Monark e suas verdades sob o sol escaldante. Fiquei com as lições. A vida segue me ensinando de muitas maneiras, e hoje ela estava montada em uma velha bicicleta vermelha.

 

Alessandra Piassarollo
Administradora e Escritora

Alessandra Piassarollo - ES1.com.br

E se eu me for agora, terei amado o suficiente?

Soube da notícia de que um conhecido havia partido dessa vida. De repente, surpreendentemente, sem nenhum tipo de aviso prévio, como a morte costuma fazer.

Fiquei imaginando se as coisas seriam diferentes na vida dele, se ele soubesse que partiria em breve. Imaginei se as coisas seriam diferentes na minha vida, e na vida de todos nós; se não deveríamos estar mais atentos ao fato de que a vida vai terminar para nós também.

Será que temos amado em quantidade suficiente? Será que temos feito o nosso melhor e aproveitado a companhia das outras pessoas? Ou partiremos deixando para trás aquela sensação de que deveríamos ter feito tudo de forma diferente?

Muito provavelmente a resposta é a de que não estamos vivendo da melhor forma possível. Poderíamos estar vivendo com prazer e com mais qualidade. Poderíamos estar pondo freios em nossa preocupação exagerada e nessa vontade de partir pra briga, contra tudo e contra todos, que temos sentido.

Deveríamos refrear nosso velho hábito de deixar coisas importantes para depois, simplesmente porque não temos nenhuma garantia de que o depois virá. E parar de alegar falta de tempo, principalmente se ele estiver sendo mal gasto.

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Aprender a não guardar roupa, calçados e louças para ocasiões especiais. O momento especial é agora, porque ele nos garante vida para desfrutá-lo. Poderíamos parar de economizar o que temos de bom dentro de nós. E não deixar a vida, os amores e os sonhos pra depois. Eles não precisam ficar tanto tempo na sala de espera.

Tampouco podemos desperdiçar o tempo de agora, porque ele é precioso demais para isso. O ontem não regressará e talvez o amanhã não chegue até nós.

Engana-se quem pensa que essas verdades exigem pensamentos negativos. Mas é preciso que fiquemos em estado de alerta e deixemos despertar em nós um desejo irrepreensível de amarmos a vida e tudo o que ela nos oferece.

Que o prazo de validade determinado que nos foi imposto desperte em nós o desejo de diminuir os conflitos e de ter mais sossego interior. Busquemos a sensação reconfortante de ter nossas almas desfrutando de afeto e de tranquilidade; que saibamos reassumir o controle da nossa vida, sem sermos marionetes para o teatro sentimental de ninguém.

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Não queiramos que as circunstâncias da vida tragam-nos arrependimentos por não termos sabido conduzir nossos dias. Amemos o máximo possível: A nós mesmos e às outras pessoas. Tenhamos apreço por quem somos e respeito por quem fomos. Planejemos o futuro de forma que possamos aproveitar bem todas as oportunidades que vierem, enquanto vierem.

Andemos de cabeça erguida, sem culpas desnecessárias. Esforcemo-nos para encarar todos os fatos com leveza e com a certeza de que existe uma lição a ser aprendida em cada acontecimento.

Desfrutemos da vida com a coerência de quem sabe que um dia ela terminará. E torçamos para que o acaso não se canse de nos proteger, caso continuemos a andar tão distraídos.

Alessandra Piassarollo
Administradora e Escritora

 

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