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Política Estadual

Consumo precoce de álcool pode causar danos

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No sábado (20) celebra-se o Dia Nacional de Combate às Drogas e ao Alcoolismo, mas há pouco o que comemorar. Vários estudos sugerem que o consumo de álcool entre jovens vem crescendo nos últimos anos. Além disso, apontam que o primeiro contato e a embriaguez acontecem cada vez mais de forma prematura. Segundo especialistas, tais fatos são preocupantes porque o uso excessivo de bebidas alcoólicas pode levar a uma série de consequências tanto biológicas como sociais na vida de crianças e adolescentes.

Para o psicólogo Amauri Costa, pós-graduado em dependência química e saúde mental, o impacto que a bebida e as drogas podem causar a crianças e adolescentes deve-se ao fato de expô-las a sequelas neuroquímicas emocionais, déficit de memória, perda de rendimento escolar, retardo na aprendizagem e no desenvolvimento de habilidades, entre outros problemas. 

O uso excessivo do álcool pelos jovens está mais associado à morte do que o consumo de drogas ilícitas, segundo aponta documento da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), tendo como referência boletim divulgado em 2017 pelo Instituto Nacional de Abuso de Álcool e Alcoolismo (NIAAA), dos Estados Unidos. De acordo com a SBP, o consumo de bebida alcoólica está relacionado à ocorrência de acidentes automobilísticos, ao aumento da chance de violência sexual, a prejuízos acadêmicos e a danos cerebrais. Além disso, de acordo com o documento, para quem começa a beber antes dos 15 anos, o risco de dependência é quatro vezes maior. 

Motivos

Trabalhando há 25 anos na área, Costa diz que são diversos os motivos que levam os jovens a consumirem álcool e drogas. “Pode ser o princípio do prazer, buscar aventuras, pode ser por curiosidade, por influência dos amigos ou diante de núcleo familiar conflitante. Os jovens buscam um alívio dessas angústias dessas ansiedades nas drogas, que dão uma resposta imediata, mas não resolvem nenhum problema, só adiam”, ressalta o psicólogo.

Pedro (nome fictício) relata como foi a sua iniciação no consumo do álcool, ainda na infância: “Experimentei a bebida a primeira vez com 7 anos, pegando resto de bebida dos outros. Depois com 12 anos acabei ficando embriagado numa festa de Natal. Comecei a beber com regularidade a partir dos 18 anos”, conta.

Hoje abstêmio, Pedro recorda as consequências da prática para a sua saúde e conta que um dos efeitos do uso excessivo de álcool que mais lhe incomodavam eram os “apagamentos”, a perda de memória recente, episódios que, segundo ele, terminaram quando ele finalmente conseguiu parar de beber aos 26 anos.

Rede de atendimento

O psicólogo Amauri Costa atua no Centro de Acolhimento e Atenção Integral sobre Drogas (Caad), equipamento público do governo do estado responsável por acolher pessoas que buscam atendimento em decorrência do uso de álcool e outras substâncias. O centro faz parte do Programa Estadual de Ações Integradas sobre Drogas (Rede Abraço), que trabalha quatro eixos: prevenção; cuidado e tratamento; reinserção social e estudo; e pesquisas e avaliações.

Costa explica que, ao chegar no Caad, a pessoa é recebida por uma equipe multidisciplinar que vai traçar o melhor caminho para o tratamento, podendo ser a desintoxicação hospitalar para os quadros mais graves, o atendimento ambulatorial ou o acolhimento nas comunidades terapêuticas credenciadas pelo Estado. Há, também, grupos voltados para os familiares dos usuários.

De acordo com o psicólogo, a Organização Mundial de Saúde (OMS) define que o alcoolismo é uma doença progressiva e fatal, sem cura. “A pessoa, uma vez tornada alcoólatra ou dependente químico, não consegue mais fazer o uso controlado. O que a gente fala é de tratamento, que consegue manter a pessoa afastada seja com a equipe ou com os grupos de mútua ajuda, que são os Narcóticos Anônimos (NA) e os Alcoólicos Anônimos (AA)”, reforça.

Drogas

A bebida alcoólica não foi um problema na vida de Marcelo (nome fictício). Ele provou ainda na adolescência, mas não gostou. Porém, a situação mudou quando passou a consumir drogas ilícitas, em especial, a cocaína. “Tive uma overdose. Foi um susto muito grande, as pessoas acharam que eu tinha morrido. Depois do ocorrido algumas pessoas se afastaram de mim e em certo ponto eu entendo. Ninguém quer andar com uma bomba-relógio e acabar sendo responsável pela irresponsabilidade dos outros”, afirma.

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Ele não procurou ajuda profissional, mas costuma conversar com amigos sobre o tema. Além da cocaína, já usou as chamadas drogas sintéticas. Hoje, costuma utilizar semanalmente algum tipo de droga. “Eu percebo que é um escape, me faz bem, me desliga dos problemas atuais e dos traumas passados. Não ultrapasso meus limites e não exponho meu corpo com o máximo”, diz.

PeNSe

O último grande levantamento publicado abordando a relação dos jovens com a bebida foi a Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE) de 2015, que apontou um crescimento de 50,3% para 55,5% entre os estudantes do 9º ano do ensino fundamental que consumiram álcool pelo menos uma vez na vida em comparação com 2012. O estudo foi realizado por instituições do governo federal com alunos de 13 a 17 anos de escolas públicas e privadas de todo o país.

Outro dado interessante da pesquisa indicou que as meninas estão experimentando mais o álcool do que os meninos (56,1% contra 54,8%). Além disso, 21,4% do total dos entrevistados contaram ter chegado à embriaguez na vida, sendo 21,7% meninos e 21,1% meninas. A idade média do primeiro consumo foi de 12,5 anos.

Por fim, o PeNSE mostrou como os jovens obtiveram a bebida: 43,8% disseram que foi em festas; 17,8% com amigos e 14,4% comprando em mercados e afins. Também foram citados como forma de acesso ao álcool algum membro da família (9,4%); outros meios (5,4%); em casa, mas sem permissão dos pais e dando dinheiro para outra pessoa comprar (ambos com 3,8%); e ambulantes (1,6%). 

Em relação a esses números é preciso observar que a legislação brasileira, em especial, o Estatuto da Criança e do Adolescente (Lei Federal 8.069/1990), posteriormente modificado pela Lei 13.106/2015, passou a tratar como crime a venda ou fornecimento de bebidas alcoólicas para menores de idade. A lei prevê detenção de dois a quatro anos e multa para os infratores. 

Irmandade AA

Um dos locais que ajudam jovens e adultos a superarem o vício em álcool no Espírito Santo são os Alcoólicos Anônimos (AA). O primeiro grupo surgiu em Linhares em 1972 e atualmente existem cerca de 100 grupos espalhados por mais de 50 municípios capixabas. Nas reuniões, presenciais ou online, as pessoas são convidadas a compartilharem suas experiências com o álcool.

Há mais de 30 anos sem beber, João (nome fictício) é um dos integrantes do Escritório de Serviço Local dos AA de Vitória. Ele conta que inicialmente é sugerido a quem procura a irmandade frequentar uma reunião e prestar atenção aos depoimentos. Caso deseje fazer parte, ele pode ter um padrinho ou madrinha para compreender a prática do programa Doze Passos. 

“Ficar sem beber é tarefa difícil no início, requer disposição e atenção. O mais importante é aprender que é possível a vida sem ingerir bebidas alcoólicas. Aos poucos o novo membro de AA é apresentado aos Doze Passos, que contribui significativamente para a permanência sem precisar tomar bebidas alcoólicas”, salienta.

João reforça que a medicina trata o alcoolismo como uma doença incurável e que existem vários casos de companheiros que, após pararem de beber, afastaram-se das reuniões e acabaram retomando o vício. Ele fala que muitos grupos utilizam o seguinte lema: “AA é um hospital que não dá alta”. “Entendemos que não há saída. ‘Uma vez alcoólico sempre alcoólico’. Aprendemos a deter a marcha do alcoolismo”, enfatiza.

Pedro, o personagem citado nessa reportagem, foi um dos que conseguiram superar a dependência de álcool com ajuda dos AA. A primeira reunião da qual participou foi em setembro de 1976. Após uma recaída, um ano e quatro meses depois ele conseguiu parar de beber definitivamente, aos 26 anos. “A gente acaba dando trabalho para a família. Meu pai acabava gastando dinheiro para tentar ajudar”, lembra.

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Ele fala que um dos seus irmãos teve problemas sérios com a bebida, chegando a ser internado no antigo Hospital Adauto Botelho porque vivia tendo alucinações. “A pessoa se sente bem com a bebida, ela dá essa sensação de bem-estar, mas cobra depois. Às vezes a pessoa tem que sofrer bastante para compreender a situação. A pessoa não se enxerga como alcoólatra. Ela deixa a bebida tomar conta”, alerta.

Álcool na pandemia

Uma pesquisa realizada no Canadá com mais de mil jovens de idades que vão de 14 a 18 anos revelou que, antes da pandemia do novo coronavírus, 28,6% consumiam bebidas alcoólicas. Tal número foi para 30,1% a partir das medidas de isolamento social. Chama a atenção que entre esses jovens 42% afirmaram que bebem junto com os pais.  

As informações estão no site do Centro de Informações sobre Saúde e Álcool (Cisa), uma Organização da Sociedade Civil de Interesse Público (Oscip) que debate os efeitos do uso excessivo de bebidas alcoólicas e que recentemente publicou o relatório “Álcool e a Saúde dos Brasileiros – Panorama 2020”.

O crescimento da ingestão de bebidas alcoólicas de modo geral no período também foi percebido pelo psicólogo Amauri Costa. “A gente notou sim um aumento no uso de bebida porque as pessoas passaram a ficar mais em casa, com poucas opções de lazer. Então, o consumo aumentou bastante”, frisa.

Por conta da pandemia, a rotina de atendimento no local também mudou um pouco. Costa fala que houve um momento em que foi priorizado o atendimento individual, com o agendamento do dia e horário sendo feito por telefone, mas que, com a melhora do cenário, algumas atividades de grupo foram retornando aos poucos. 

João pontua que a procura por ajuda nos Alcoólicos Anônimos também tem sido grande. Estão sendo realizadas reuniões presenciais, mas para atender à demanda e manter a segurança de todos existe a opção das reuniões virtuais, que ocorrem diariamente às 20 horas. Alguns grupos ainda se reúnem com o auxílio do aplicativo de mensagens WhatsApp.

Onde procurar ajuda?

Centro de Acolhimento e Atenção Integral sobre Drogas (Caad)

Endereço: Rua Treze de Maio, 47, Centro, Vitória. Telefone de contato: 08000281028 ou (27) 3636-6202. Horário de funcionamento: de segunda a sexta-feira, das 8 às 16 horas.

Alcoólicos Anônimos (AA)

Escritório de Serviços Local – Vitória. 
Endereço: Avenida Jerônimo Monteiro, 490, Edifício Ouro Verde, Centro. Contatos: (27) 3233-4000 ou 7268 [email protected] 
Escritório de Serviços Local – Colatina. 
Endereço: Avenida Ângelo Giuberti, 109, Vila Nova. Contatos: (27) 99902-5612 ou [email protected] 
Escritório de Serviços Local – Cachoeiro de Itapemirim.
Endereço: Praça Doutor Luiz Tinoco da Fonseca, 34, Sala 305, Centro. Contatos: (28) 3522-0648 ou [email protected]

Grupos de AA na Grande Vitória (.pdf)

Narcóticos Anônimos (NA)

Confira os grupos em funcionamento no Espírito Santo

Rede de Atenção Psicossocial (Raps) 

O mapa abaixo foi elaborado pelo Ministério da Saúde (MS) e traz a lista dos vários locais de atendimento em saúde mental de todo o país. Destaque para os Centros de Atenção Psicossocial (Caps), Infantojuvenil (Capsi) e Álcool e Outras Drogas (Caps AD). Esses serviços são indicados para municípios a partir de 15 mil habitantes. Onde não existir o equipamento o atendimento poder ser realizado na Unidade Básica de Saúde (UBS).
 

Política Estadual

Efeitos da pandemia são pauta em discursos


As causas e as consequências diversas provocadas pela pandemia ocuparam boa parte dos pronunciamentos dos deputados nesta terça-feira (20), durante a sessão ordinária virtual da Assembleia Legislativa. Questões como intensidade da propagação do coronavírus, crise econômica, crimes passionais e polêmicas sobre as aulas presenciais foram abordadas nos discursos.

A deputada Iriny Lopes (PT) considerou que a crise ganhou tal dimensão por falta de ações do governo federal e atos do presidente da República. “Nós temos que entender que a gravidade da crise que vivemos nesse momento tem uma origem, e a origem não é exclusivamente o vírus. A origem é a ausência de uma liderança e de um plano estratégico nacional que viesse a fazer frente ao vírus como os demais países fizeram”, analisou.

Iriny lembrou do período em que o cargo de ministro da Saúde ficou vago por seis meses e observou que o negacionismo é negar o que a Ciência recomenda. Também fez críticas ao presidente Jair Bolsonaro (sem partido). “O próprio presidente da República não teve respeito pela envergadura do seu cargo e promoveu aglomerações. Os seus seguidores repetiam os seus gestos. É disso que se trata quando falamos negacionismo”, argumentou.

Violência doméstica

O deputado Dr. Rafael Favatto (Patri) comentou o crescimento dos crimes passionais no estado durante a pandemia. “Infelizmente, está enraizado em nossa cultura, não deveria estar, o homem do Espírito Santo tem algo no sentido de posse, de ser dono da mulher. Mas nós não somos donos da mulher, ela é independente, um ser igual a cada um de nós”, disse.

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Favatto ilustrou essa condição de tratamento diferenciado entre homem e mulher, afirmando que vem desde o nascimento da criança, com elogios diferenciados quando se trata de um bebê do sexo masculino, e pela educação que cada um recebe na infância. “Isto está enraizado em nossa cultura, esse tipo de raiz cultural. Sobre esse sistema de posse [da mulher] é muito importante a gente  avaliar. Precisamos rever os nossos conceitos, fazer exame de consciência”, ponderou.

Ele reconheceu que a polícia não tem condições de vigiar todos os lares capixabas para evitar o feminicídio. O sistema de videomonitoramento, disse o deputado, ajuda na vigilância e deu como exemplo o sistema já instalado em Vila Velha. Entretanto, o deputado considera que “os ânimos de nossa população estão exaltados, as pessoas estão cada vez mais impacientes, o que leva ao aumento da criminalidade”, avaliou.

O deputado considerou as medidas que vêm sendo tomadas, como a arrecadação de cestas básicas, mas lembrou que uma cesta básica apenas não mata a fome para sempre. Por essa razão, defendeu o fortalecimento de vínculos pela assistência social para dar respostas à crise provocada pela pandemia.

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“Neste momento de crise econômica, infelizmente, tem aumentado o número de moradores de rua. Então, os projetos sociais, o fortalecimento de vínculos em relação à assistência social tem que ter cuidado maior de nossos gestores, o governo do estado e das prefeituras”, alertou.

Professores na pandemia

Já o deputado Sergio Majeski em sua fala criticou o discurso do deputado Ricardo Barros (Progressistas/PR), líder do governo na Câmara Federal, que declarou à CNN Brasil hoje que os professores estão causando danos às crianças porque não querem trabalhar durante a pandemia.

Majeski considerou a crítica do deputado paranaense ofensiva, humilhante. “A maioria dos professores nunca trabalhou tanto como está trabalhando agora e sem condições nenhuma para isso”, relatou.

Para ele, a pandemia está mostrando a falta de investimento na educação, o atraso das escolas em termos de infraestrutura e de qualificação de professores. “A maioria dos professores fazem um esforço imenso para fazer o melhor que podem. Toda minha solidariedade aos professores que estão fazendo muito mais do que podem”, destacou Majeski. 

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